Um olhar crítico sobre o processo de recrutamento de crianças e jovens para clubes de futebol em Angola

Um jogo de campos irregulares

O futebol em Angola é mais do que apenas um desporto; é um tecido social que une comunidades diversas. No entanto, o campo de jogo não é tão nivelado quanto parece. O processo de recrutamento de jovens jogadores de futebol é prejudicado pela discriminação socioeconômica e pela falsificação generalizada de idade. Essas práticas não apenas distorcem a competição, mas impedem que talentos genuínos surjam.

Duas Faltas Antes do Apito

O futebol juvenil de Angola enfrenta dois grandes cartões vermelhos: idades falsificadas e preconceitos económicos. A fraude de idade, uma tática comum para obter vantagens competitivas, distorce o desenvolvimento dos jogadores e a justiça do torneio. Enquanto isso, jogadores de origens ricas são marginalizados, reforçando as divisões socioeconômicas. O resultado é um sistema que não reflete o verdadeiro talento e potencial.

Representação irrealista de idade: os números não batem

A fraude de idade não é exclusiva de Angola; é um problema generalizado em toda a África. Em 2023, todos os 32 jogadores da seleção masculina júnior de Camarões foram reprovados nos testes de elegibilidade de idade. Da mesma forma, 24 jogadores do time sub-17 da Nigéria foram desqualificados após exames de ressonância magnética. Em Angola, esse engano distorce o recrutamento, com jogadores crescidos competindo em ligas com restrição de idade, ofuscando talentos mais jovens. Em 2022, a nossa equipa de futebol sub-17 foi retirada da fase de qualificação do CAN 2023 por adulteração de idade, caso que nos deixou constrangidos.

Discriminação socioeconômica: talentos presos pelo status

O recrutamento geralmente favorece atributos físicos em detrimento da habilidade, deixando de lado jogadores menores ou de origens abastadas. As decisões de olheiros, motivadas por julgamento subjetivo, perpetuam as desigualdades. O talento de um jogador pode ser invisível sob o peso da classe social, reduzindo o futebol a um privilégio em vez de uma plataforma para todos.

Os pontos cegos do olheiro de talentos

A ausência de critérios padronizados de olheiros agrava o problema. Os olheiros geralmente confiam “no que veem” em vez de medidas objetivas. Essa dependência da maturidade física deixa espaço para erros e favoritismo, criando um ambiente onde o potencial é negligenciado em favor de uma vantagem física imediata. O efeito a longo prazo? A cultura do futebol de Angola corre o risco de perder talentos diversos que não se encaixam no molde.

Nivelando o campo com jogo limpo

O futuro do futebol de Angola depende de recrutamento transparente e padronizado.

  • Verificação de idade:
    • Exames de ressonância magnética obrigatórios podem coibir fraudes de idade, garantindo uma competição justa.
  • Critérios objetivos de talento:
    • Os olheiros devem seguir diretrizes claras e inclusivas, priorizando habilidade, técnica e potencial em vez de apenas fisicalidade.
  • Políticas de inclusão: 
    • Os clubes devem oferecer bolsas de estudo e auxílio financeiro a jogadores talentosos de origens desfavorecidas, desmantelando barreiras econômicas.

Um jogo justo para todos

Para desbloquear o potencial do futebol de Angola, a reforma é essencial. Ao lidar com a fraude de idade e o preconceito socioeconômico, Angola pode promover um ambiente justo e competitivo onde o talento floresce independentemente da origem. Um sistema mais equitativo não apenas eleva jogadores individuais, mas eleva o legado do futebol de toda a nação.

Referência


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